Para entender o Brasil: COLÔNIA
Os historiadores Boris Fausto (BF), Evaldo Cabral de Mello (ECM), Laura de Mello e Souza (LMS), Manolo Florentino (MF) e Ronaldo Vainfas (RV), sugerem e comentam livros essenciais para conhecer o passado do país.

Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda - Livro que não se refere apenas à Colônia, mas nela localiza o essencial das "raízes do Brasil". A distinção entre colonização espanhola e portuguesa fez escola. (BF)

Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda - Ensaio sobre o imaginário do colonizador, como indica seu subtítulo: os motivos edênicos no descobrimento e na colonização do Brasil. (BF)
É a obra mais notável de toda a historiografia brasileira. Tem erudição, reflexão e originalidade ímpares. Por ser tão superlativa, talvez iniba um pouco o leitor. É mais uma obra-prima de Sérgio que não conheceu a repercussão merecida e só começou a ter impacto na historiografia brasileira por volta do meado dos anos 80. (LMS)
Para além da riqueza e do poder, conquista e colonização do Brasil obedeceram a profundas motivações edênicas. Um verdadeiro show de elegância e erudição. (MF)
É o melhor livro do maior historiador brasileiro, pois inaugura o estudo do imaginário do Descobrimento e avança na comparação entre a colonização portuguesa e a espanhola da América, por ele mesmo esboçada em "Raízes do Brasil" (1936). (RF)

Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr. - Um clássico sobre as linhas gerais da implantação da Colônia, de inspiração marxista, sendo referência importante para estudos posteriores. (BF)
Continua a ser uma síntese magistral da existência material da Colônia. Quem o consulta, constata invariavelmente a precisão e a seriedade com que seu autor se desincumbiu da tarefa, inclusive da cozinha do ofício. Obra escrita por um marxista, ela poderia ser perfeitamente assinada por um historiador que o não fosse. (ECM) Este livro deu, como logo no início nos alerta o autor, sentido à colonização brasileira e forneceu instrumentos para importantes análises estruturais subsequentes. Envelhecido e discutível nas partes sobre sociedade e administração, é argutíssimo ao apontar os canais para a dinamização interna da economia - os circuitos de muares, a pecuária, a economia de subsistência. (LMS) Foi o primeiro a conceber a colonização como sistema e como estrutura, apesar dos vários deslizes na avaliação da questão racial. Ao contrário do que muitos dizem, percebeu muito bem as articulações econômicas no interior da Colônia. (RV)

O Diabo e a Terra de Santa Cruz, de Laura de Mello e Souza - Aproxima-se e ao mesmo distancia-se do livro de Sérgio Buarque de Holanda, "Visão do Paraíso". Fundamental para o conhecimento da religiosidade popular e das chamadas práticas de feitiçaria no Brasil colonial. (BF)
O melhor livro de Laura, embora muitos prefiram "Desclassificados do Ouro". Mas é que o Diabo inaugurou a moderna história das mentalidades no Brasil, mostrou as potencialidades das fontes inquisitoriais para a história cultural e entrou fundo no problema da religiosidade, traço essencial da história e da vida no Brasil. (RV)

Olinda Restaurada, de Evaldo Cabral de Mello - Trata-se de um estudo sobre o período holandês no Brasil. Focaliza os anos 1630-1654, ampliando a compreensão dos interesses envolvidos, ligados ao açúcar, e a natureza da guerra de expulsão. (BF)

Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808), de Fernando A. Novais - Monografia clássica, de inspiração marxista, versando sobre relações entre a colônia e a metrópole, em uma conjuntura decisiva para os rumos da Independência brasileira. (BF)
Esta obra retoma a ideia do sentido da colonização de Caio Prado e analisa de forma notável o "sistema colonial", mostrando suas contradições e a necessidade de se entender metrópole e colônia, Europa e Brasil em suas relações dinâmicas. (LMS) 
Avançou na tese da colonização moderna como sistema, o que causou muita polêmica. Mas o melhor do livro é a maneira de articular as transformações econômicas europeias e a política portuguesa no fim do século 18. (RV)

Segredos Internos, de Stuart B. Schwartz - Monografia que reconstitui a economia e a sociedade açucareira da Bahia, a partir de fontes primárias. Critica concepções tradicionais sobre a continuidade no tempo e a riqueza dos senhores de engenho. (BF)
Verdadeiramente insubstituível para o estudo da mais antiga das nossas sociedades coloniais, a canavieira do Nordeste. (ECM) 
A mais qualificada síntese moderna da história baiana. Incorpora o que há de melhor entre as pesquisas sobre a região, esmerando-se no trânsito entre diversos tipos de fontes. (MF)

A Devassa da Devassa, de Kenneth Maxwell - Estudo das relações entre Brasil e Portugal, nos anos 1750-1808, tendo como foco a análise da Inconfidência mineira. (BF)
Para entender a Inconfidência Mineira a partir de uma perspectiva verdadeiramente atlântica. (MF)

A Nação Mercantilista, de Jorge Caldeira - O livro é um ensaio sobre o Brasil colonial e do século 19, tratando de relativizar os elementos estruturais e enfatizar uma deliberada opção dos agentes internos, na explicação do "atraso brasileiro". (BF)

D. João 6º no Brasil, de Oliveira Lima - Um clássico sobre o período joanino, publicado pela primeira vez em 1908. Reavalia o papel do rei português e reconstitui a vida na corte, com uma qualidade que prenuncia a obra de Gilberto Freyre. (BF)

História do Brasil, de Robert Southey - O profundo conhecimento da história de uma distante colônia portuguesa por parte deste "poeta laureado" da Grã-Bretanha foi motivo de mofa para seus contemporâneos ingleses; mas se ainda hoje ele é lido não o deve a sua poesia. (ECM)

História do Brasil, de H. Handelmann - Publicada dez anos decorridos da primeira edição da "História do Brasil", de Varnhagen (1854), a obra do historiador alemão só em 1931 mereceu tradução brasileira, tratando-se ainda hoje de livro escassamente lido, embora possa ser considerado o iniciador do estudo da história brasileira sob critério regional. (ECM)

Capítulos de História Colonial, de J. Capistrano de Abreu - A despeito de redigido há quase um século, permanece obra indispensável, devido à garra sintetizadora do autor. Não é o produto de intuições deixadas no ar, mas elaboradas ao longo de muitos anos de convívio diário com as fontes da história colonial. (ECM)
Capistrano é o antepassado direto das interpretações do Brasil que voltam ao período colonial para entender o processo formativo do país. A melhor coisa do livro é a ênfase na interiorização do processo colonizador. (LMS)
Deu uma guinada na historiografia brasileira, pois questionou a "História Geral" de Varnhagen, bem documentada, mas história "oficial". Deslocou o foco da colonização portuguesa para a Colônia na sua diversidade. (RV)

Casa-Grande& Senzala, de Gilberto Freyre - Obra de intuições certeiras e de outras não tão certeiras assim, proporciona uma visão poderosa do nosso passado colonial. Submetido a análises pontuais, mostra deficiências compreensíveis num livro escrito nos anos 30 do século 20, quando o autor não dispunha de uma infraestrutura monográfica capaz de embasar estudo de escopo tão ambicioso. (ECM)
É um dos mais importantes trabalhos das ciências sociais neste século. Polêmico e discutível, tem aspectos geniais. Influenciou a historiografia norte-americana sobre escravidão e inaugurou temas só tratados pela escola dos Annales décadas depois. No que diz respeito à colônia, traz para a sua análise uma renovação de enfoque e temas sem precedentes. (LMS)
Genial. Antecipou algumas das mais importantes conquistas metodológicas da historiografia ocidental. É difícil encontrar hoje em dia quem escreva com tanta coragem. (MV) Livro genial, apesar de inúmeras críticas que com razão lhe moveram. Concebeu como ninguém a mestiçagem cultural inerente à nossa história e introduziu a antropologia na historiografia brasileira. (RV)

Caminhos e Fronteiras, de Sérgio Buarque de Holanda (Ed. Companhia das Letras). Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda  - "Caminhos e Fronteiras" e "Visão do Paraíso" constituem duas obras-primas da nossa historiografia colonial e, como tal, insuperadas por nenhum outro livro dedicado ao período. Honram a historiografia de qualquer país. Literariamente, também têm lugar aparte graças ao estilo espaçoso do autor. (ECM)

Tempo de Flamengos, de J. A. Gonsalves de Mello - Na trilha de Gilberto Freyre, que o estimulou aos estudos de história social, o autor oferece um quadro abrangente da presença holandesa no cotidiano urbano e rural do Nordeste e das relações do invasor com luso-brasileiros, judeus, índios e negros. (ECM)

Salvador Correia de Sá e a Luta pelo Brasil e Angola, de Charles R. Boxer - Trata-se da mais importante das obras dedicadas ao Brasil por este eminente historiador do mundo luso-brasileiro em língua inglesa. Seu conhecimento das fontes do século 17 é algo de notável, servindo para demonstrar que a erudição ainda é o melhor antídoto contra o envelhecimento dos livros de história. (ECM) 
Este é, até hoje, o único estudo de fôlego sobre a formação do complexo sul-atlântico do império português, destrinchando a constituição e consolidação dos nexos estabelecidos entre a América portuguesa, a África e a Europa no século 17. Por fim, realiza ao mesmo tempo a biografia da sua personagem, Salvador Correia, e a história do Atlântico Sul, mostrando como, às vezes, certos agentes históricos encarnam a História. (LMS)

Histoire d'un Voyage Fait en la Terre du Brésil (História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil, 1578), de Jean de Léry - Com o extraordinário livro de Léry - que Lévi-Strauss chamou de "breviário do etnólogo" -, o Brasil e os tupinambás entram na Europa e lançam-se as bases do relativismo cultural. A grande edição é a de Frank Lestringant (1994, para "Livres de Poche"), que tomou por base a edição de 1580. A tradução brasileira, de Sérgio Milliet, parece-me basear-se na de 1578 e é bastante incompleta, deixando de fora passagens fundamentais. (LMS)

História do Brasil (1627), de Frei Vicente do Salvador - Frei Vicente escreveu a primeira história do Brasil, antes mesmo de existir um Brasil. De certa forma, ele nos "inventou". É importantíssimo para os fatos ocorridos nos primeiros tempos da colonização e arguto ao perceber as contradições entre o lá (Portugal) e o cá (o Brasil). (LMS)
O primeiro que escreveu um livro com este título. Rigoroso nos fatos e muito crítico. Franciscano, foi nosso primeiro historiador. (RV)

Vida e Morte do Bandeirante (1929), de José Alcântara Machado - É, a meu ver, a primeira monografia da moderna historiografia brasileira. Recorta um objeto -São Paulo nos séculos 16 e 17-, destaca um problema - a pobreza econômica- e "inventa" uma fonte documental: os inventários e testamentos, só muito depois utilizados pela historiografia do hemisfério Norte. (LSM)

Caminhos e Fronteiras (1956), de Sérgio Buarque de Holanda - Compreende uma série de exercícios de história cultural que, apesar de breves, têm um fôlego surpreendente. Abre perspectivas de análise ainda irrealizadas, e é intrigante que seja um livro tão pouco lido e citado. (LSM) (ECM)

A Fronda dos Mazombos (1995), de Evaldo Cabral de Mello - É um marco na historiografia social do Brasil. Sendo uma narrativa assentada na minúcia e na atenção à especificidade - Pernambuco entre 1660 e 1715 -, cria, contudo, o melhor "modelo" de análise das sublevações coloniais. (LSM)

O Império Marítimo Português - 1415-1825, de Charles R. Boxer - Imprescindível demonstração da natureza arcaica e parasitária do Antigo Regime lusitano e do lugar da Colônia brasileira nos quadros do império português. (MF)

Transformation in Slavery - A History of Slavery in Africa, de Paul E. London Lovejoy - Explica a inserção estrutural da África no sistema Atlântico (via tráfico negreiro) a partir de motivações intrínsecas à própria história africana. Fundamental para pôr fim ao mito do "bom selvagem". (MF)

A Sociedade contra o Estado, de Pierre Clastres - Para entender politicamente as sociedades pré-cabralinas. Originalíssima contribuição etno-histórica deste anarquista, discípulo de Lizot, precocemente desaparecido. (MF)

A Escravidão Africana no Brasil (Das Origens à Extinção do Tráfico), de Maurício Goulart - Até o momento, a mais sólida estimativa das importações brasileiras de escravos africanos. Uma verdadeira aula sobre como abordar consistentemente grandes questões a partir de poucos dados. (MF)

História Geral do Brasil, de Francisco Adolpho de Varnhagen - O grande tratado onomástico da história brasileira, como recentemente definiu-o um arguto crítico. Devem ser consultadas as anotações de Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia. (MF)

O Espelho de Próspero (Cultura e Ideias nas Américas), de Richard M. Morse  - Se nada nos une, o que de fato nos separa? Explica, dentre outros tópicos, as marcantes diferenças culturais entre a colonização ibérica e a anglo-saxã, partindo da própria Idade Média europeia. Erudição borgiana. (MF)

A Organização Social dos Tupinambás (1946), de Florestan Fernandes - O melhor livro de Florestan, que fez história sem ser historiador. Acho que os antropólogos não gostam, mas o livro dá lição de como explorar etnograficamente as fontes europeias para desvendar a cultura tupinambá. (RV)

Relações Raciais no Império Colonial Português (1967), de Charles Boxer - Nosso maior brasilianista, autor de copiosa obra. Escolhi esse livro de Boxer como emblema de suas teses. Pela inserção do Brasil nos quadros do império português e pela crítica ao mito da "democracia racial". (RV)

Rubro Veio (1985), de Evaldo Cabral de Mello - Diplomata, é um dos nossos melhores historiadores, autor de vasta obra sobre Pernambuco colonial. Neste livro, Evaldo põe abaixo mitos importantes da guerra contra os holandeses como patamar da brasilidade. (RV)

[Publicado originalmente pelo jornal Folha de São Paulo - adaptado]

3 comentários:

Juarez Felix disse...

Alguma bibliografia nem tão derrotista e pessimista: Brasilianas- A Política Exterior do Império, J. Pandiá Calógeras; Evolução Econômica do Brasil, John francis Normano (Harvard); O Brasil e os brasileiros, Daniel Kidder & James C Fletcher; A História Econômica do Brasil, Roberto C. simonsen; As Elites de Cor: um estudo de ascenção social, Thales de Azevedo. As visões marxistas de Caio Prado e Florestam Fernanades não correspondem aos fatos, como provou Jorge Caldeira. Os escravos estavam nas mãos da classe média, não de latifúndios.

Juarez Felix disse...

Napoleão dise, sobre D João VI: "O único que me pregou uma peça". E, noexílio de Sta. Helena, teria dito: "Meu maio erro, perdi a guerra pela invasão da Península Ibérica". A retirada para o Brasil foi uma estratégia militar genial. Nunca se disse que os russos fugiram de Napoleão ou de Hitler. E usaram a tática da terra arrasada. Mas em Portugal Napoleão perdeu três vezes. Portugal é a fronteira estável mais antiga do mundo.Porque omitimos tudo isso? A economia do Brasil está passando a França, que de 1789 até aqui teve menos democracia que o Brasil.

Suzana disse...

Excelentes observações, senhor Felix!